Projeto acolhe pessoas com Síndrome de Down e oferece aulas de culinária para inserí-las na sociedade; instituto também tem curso para garçons

A Síndrome de Down – alteração genética causada pela presença de um cromossomo a mais – afeta o desenvolvimento de seus portadores, determinando algumas características físicas e cognitivas. Em 2006, o casal paulistano Simone e Márcio Berti viu na gastronomia a possibilidade de ajudar essas pessoas a se integrarem na sociedade. Surgiu, assim, o Instituto Chefs Especiais.

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“Eu e meu marido queríamos, de alguma forma, retribuir à sociedade a vida bacana que tínhamos. Começamos a pesquisar que tipo de público poderíamos ajudar. Pessoas idosas e crianças têm projetos dedicados a elas, mas os deficientes estão sempre à margem da sociedade”, conta Simone. "A  gastronomia é um elemento transformador, pois dá autonomia. Nós, do Chefs Especiais, incluímos essas pessoas não só na sociedade, mas na vida” afirma, justificando a escolha pela culinária.

Até 2012, o instituto sobreviveu por meio da mobilização social, sem receber qualquer tipo de contribuição externa. Com o tempo, o trabalho do casal chamou a atenção de chefs de renome – como Guga Rocha , Fogaça e Claude Troisgros –, que acabaram aderindo ao programa. Além deles, celebridades como Toni Ramos e Alexandre Nero também demonstraram interesse pelo projeto.

Simone e Márcio Berti acreditam no potencial da gastronomia como um elemento transformador
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Simone e Márcio Berti acreditam no potencial da gastronomia como um elemento transformador

Para iniciar no Chefs Especiais, os portadores recebem todo o cuidado e preparo necessário. “Temos uma oficina chamada Down Cooking, onde eles não mexem com fogo ou materiais cortantes, que dura em média três horas. Na oficina, não selecionamos o tipo de comprometimento que eles têm, mas verificamos quem tem aptidão por culinária. Depois de identificarmos, eles passam por um processo seletivo para entendermos se têm autogestão, querem realmente aprender e se os pais têm condição de levar nas aulas. Feita a triagem, eles vão para as aulas de capacitação, onde já podem mexer com material cortante” explica.

No instituto, quem não gosta de cozinhar também não é deixado de lado. “Quem não tem aptidão pode continuar nas oficinas Down Cooking, onde fazemos um rodízio, porque são muitos alunos. Temos também um curso para garçons, aulas de violão, zumba, que eles adoram, e computação. Para o ano que vem, pretendemos fazer alguns trabalhos inovadores para a moçada”, diz.

Simone costuma ficar sensibilizada com as histórias das pessoas que frequentam o Chefs Especiais, mas uma delas tem um lugar especial em suas recordações. “A história que mais me tocou foi a da Natália, que também tinha leucemia. Quando ela veio para os Chefs Especiais, fazia quimioterapia e o seu corpo não reagia ao tratamento. Estava praticamente desenganada pelos médicos. Depois de um tempo, a médica chamou a mãe e perguntou o que estavam fazendo de diferente com a paciente dela e a mãe falou sobre as nossas aulas. A médica, naquela ocasião, disse para que a mãe continuasse levando ela ao instituto, pois a autoestima da menina estava melhorando a cada dia e o corpo estava reagindo” lembra, emocionada.

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Atualmente, o instituto atende mais de 300 pessoas por ano. Apesar disso, ainda é necessário encontrar parceiros para ampliar e continuar levando a gastronomia àqueles que precisam. “Hoje temos parceiros incríveis, mas ainda não é o suficiente para fazermos o que é necessário ser feito. Estamos conversando com outras empresas. Se tudo der certo, poderemos fazer novas capacitações e, quem sabe, nossos alunos possam ser empregados”, projeta Simone.